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NEM TUDO QUE DÁ CERTO é certo!

Vivemos em busca do que é certo tomando decisões o tempo todo. E, mesmo quando não tomamos uma decisão, estamos decidindo, pois, uma não-decisão é também uma decisão – a de não decidir. Sobra-nos a questão sobre o ponto de partida para as nossas decisões diárias. Uma delas tem sido o utilitarismo que considera uma […]

Blog - NEM TUDO QUE DÁ CERTO é certo

Vivemos em busca do que é certo tomando decisões o tempo todo. E, mesmo quando não tomamos uma decisão, estamos decidindo, pois, uma não-decisão é também uma decisão – a de não decidir. Sobra-nos a questão sobre o ponto de partida para as nossas decisões diárias. Uma delas tem sido o utilitarismo que considera uma decisão certa aquela que dá certo ou aquela que é útil.

Assim, é normal pensarmos que tudo que dá certo é bom, é certo ou correto. Atualmente o sucesso é tido como paradigma de aprovação. Assim, se a sala de aula está cheia, é sinal de que o professor é competente. Se a empresa está lucrando, significa que seus produtos e serviços têm qualidade. No mundo religioso, igreja lotada é sinônimo de ministério abençoado. Mas, será mesmo?

O problema é quando aplicamos esta mesma lógica para o campo da ética em nossas decisões diárias. Mensalão, petrolão, Lava-Jato, são típicos. Para que projetos de leis ou interesses de grupos fossem aprovados em Brasília e empresas fossem beneficiadas com obras de elevado rendimento, descobriu-se que valores eram generosamente distribuídos a parlamentares para que votassem favoravelmente ou licitações fossem aprovadas beneficiando empresas que participavam dos “esquemas”. Enquanto o esquema funcionou, tudo era “correto” e cada um recebia a sua parte. Mas alguém entrou em prejuízo e colocou a “boca no trombone”, colocando tudo a perder.

Parece-me que esta lógica “mensalista e petroleira” ainda reina solta em toda tessitura da vida ética nacional, pois não é apenas nas altas esferas do poder que é possível detectar isso, na nossa vidinha comum também é possível ver inúmeros casos de gente “pega com a mão na botija”.

Quem nunca ouviu falar do funcionário que apresenta para reembolso notas fiscais mais altas do que as despesas que fez? Nos restaurantes e nas corridas de táxi, é “normal” pedir comprovantes com valores mais altos e a pessoa vai se dando bem, até o dia em que é descoberta e vai para o “olho da rua” e fica com a ficha suja.

E o marido ou esposa que vive um caso extraconjugal, escondendo a situação da família durante anos a fio? Um belo dia, um telefonema indiscreto, um e-mail ou mensagem digital ou um bilhete perdido no paletó ou na bolsa, põem a farsa por água abaixo.

E o que dizer do motorista com a sua pontuação já beirando os 40 pontos, acaba colocando a infração em nome de outra pessoa. Se dá certo, por que não pensar que isso é certo???

Todas são situações em que tudo parecia dar certo, apesar das flagrantes transgressões da ética, da lei e da retidão. Logo, nem tudo que dá certo, ou que funciona por um tempo, é certo e correto. Se a sua ética é orientada pela funcionalidade, utilidade ou por princípios que sinalizam se nossos atos estão certos ou não, seu fundamento é utilitarista que desconsidera que a verdade precisa ser compatível com a realidade e não com a conveniência ou adequação e com os resultados. É uma ética fundamentada em valores egoístas e que estimulam a “lei de Gérson” – a lei da vantagem pessoal. A ideia aqui é congelar a realidade dos fatos e fazer valer nosso interesse pessoal ou de nosso grupo. Satisfeito isso, tudo volta ao normal como se nada tivesse acontecido, até que surja outra oportunidade.

Precisamos buscar resultados, mas que sejam compatíveis com a justiça, com a verdade e retidão. Se almejamos um mundo melhor, o desafio é, escolher entre buscar o utilitarismo pragmático ou ter uma vida orientada por princípios éticos fundamentados em elevados e perenes valores. Somente assim nossas atitudes e decisões serão essencialmente certas.

 

Lourenço Stelio Rega

Teólogo, especialista em Bioética e Ética, escritor, Consultor Acadêmico da Editora Vida

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